A Stare.
Dez passos. Só mais um, não desista. Continue, você consegue ser forte. Não
ligue para eles, o que eles sabem?
Isabelle Arnaud olhou para o céu, tentando descobrir uma razão. Era tudo que
precisava; um motivo para estar ali, para continuar a puxar o ar de seus
pulmões e assistir enquanto seus dedos tocam o chão com a mais gentil das
sutilezas. Mas era só isso, nada vinha a sua mente. Pensava e pensava, tinha
vontade de gritar para que alguém a respondesse. O que diabos estava fazendo
ali? Suspirou, se conformando com a idéia de que isso não importava de verdade,
mesmo sabendo que a mentira poderia consumi-la. Olhou para a praça na qual
estava; era realmente deprimente. As folhas secas do outono agora estavam em um
tom monótono marrom, apodrecendo lentamente. Os brinquedos cheiravam a abandono
e um toque de solidão dominava tanto aquela pequena área que até a mais feliz
das pessoas se sentaria em um daqueles bancos de madeira e se perguntaria como
poderia ainda sorrir. Parou de analisar, tentando pensar como havia chegado
ali. Os Kobb provavelmente estavam vivendo a vida como era antes de terem a
adotado, em um mundo tão colorido e ao mesmo tempo tão vazio. Tinha uma
escolha. Pela primeira vez, desde que o casal australiano a encontrou perdida
das ruas de Le Marais, teria a chance de fazer o que achava que deveria fazer.
Todavia, algo a estava prendendo naquele lugar tristonho. Como ter tanta
afeição por algo que no final nunca valeu a pena? Sua vida em Sidney era o que
todos chamariam de vida dos sonhos,
afinal, não é tudo o que querem? Estar estudando direito na melhor faculdade do
país, ter tido a sorte de ter uma família adotiva acolhedora, um noivo que
aparentemente vive por você e amigos que são como irmãos? Isso era o que
Isabelle não entendia. Por que as pessoas queriam tanto ter essa vida fabricada
de mentiras? Há uma semana, a mesma pergunta apareceu na mente da jovem
francesa. E essa pergunta se espalhou em sua cabeça como um vírus e chegou a um
ponto em que nada mais importava. Queria respostas. Não, honestamente, não
queria. Não queria ouvir a razão e nada
mudar em si mesma.
Tinha
apenas vinte e três anos. Passara cinco morando com uma mulher que deveria
chamar de mãe, porém não se lembrava dela. Os outros seis – os piores, se
pensasse com força – passou no orfanato, onde fora obrigada a raspar sua cabeça
por ter batido em um garotinho mais novo. Onde entrou em sua primeira briga e
ganhou, só para depois passar três dias sem comida por mau comportamento. Com
apenas onze, decidiu que aquilo era demais e fugiu na mesma noite em que os
donos do local falaram como estavam felizes por ela ter se tornado tão boa.
Então, encontrou os Kobb e uma menina ruiva cujo era de sua idade.
Imediatamente, adoraram a garotinha loirinha que não falava uma palavra de
inglês. Meses depois, lá estava Isabelle, comendo comida de primeira classe e
falando uma língua carregada de sotaque francês. Mas nada disso importava mais.
Paris, Sidney, Kobb, perguntas que não tinham respostas... Tudo podia esperar.
Depois dos acontecimentos da última semana, recebera uma carta com papel rosa e
perfume de morango. Pedia que ao invés de passar os próximos meses em um quarto
e a base de remédios, se juntasse a ela e sua família no tempo em que devia
estar fazendo tratamento. Não nossa,
sua. Seus olhos dançavam rapidamente enquanto tentava entender a caligrafia
perfeitamente correta e perdeu o fôlego quando viu a assinatura. Arnaud. Como
Isabelle Arnaud. Havia recebido o
envelope de manhã e agora estava a caminho. Não queria conhecer sua mãe, não
queria ser sua amiga ou até menos sua filha. A faria pagar por tê-la
abandonado. E que jeito melhor do que largar aquele lugar sombrio e tão
colorido do que pegar o primeiro vôo para Los Angeles para fazê-lo? Sim, agora
Isabelle podia olhar para o céu e dessa vez, só dessa, saberia a resposta. Era infantil, era egoísta e
obviamente vingativo, mas qualquer desculpa para fugir de seus próprios
demônios lhe convinha no momento.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
just be it